Acertando a estratégia
Os efeitos das mudanças climáticas já são visíveis. Não se tratam de modelos abstratos; constituem uma realidade operacional que já impacta a infraestrutura diariamente. Por exemplo, o aumento das temperaturas pode reduzir a vida útil de determinados pavimentos aeroportuários em até 25% em um período de dez anos. Isso altera de forma fundamental as estratégias de manutenção, o planejamento de renovação e a alocação orçamentária.
Para operadores aeroportuários, a dificuldade reside no horizonte temporal. Sua atuação envolve, naturalmente, a gestão de curto prazo, com foco na manutenção da continuidade operacional. No entanto, os riscos climáticos precisam agora ser analisados em múltiplas escalas temporais. De acordo com projeções do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), algumas regiões podem registrar aumento das precipitações no curto prazo, seguido de uma redução no longo prazo. Sem essa compreensão de diferentes escalas, os operadores correm o risco de super adaptar suas infraestruturas, ou seja, investir demais em soluções eficazes hoje, mas obsoletas amanhã. Tanto a super adaptação quanto a sub adaptação podem gerar custos significativos.
Além dos dados climáticos, o desafio consiste, acima de tudo, em estabelecer uma visão de curto e longo prazo, alinhada à gestão cotidiana e plenamente integrada às restrições operacionais. O objetivo é apoiar a tomada de decisão informada e a realização de trade-offs eficazes em planejamento, investimentos e manutenção, assegurando um nível de serviço adequado diante da evolução das condições climáticas.
Para sustentar essa abordagem, uma metodologia dedicada de resiliência climática é essencial, pois transforma a antecipação em um instrumento estratégico e acionável.
Desenvolvimento colaborativo
Uma estratégia de adaptação só é eficaz e credível se for concebida de forma coletiva. Uma abordagem “a portas fechadas” entre especialistas tende a resultar em avaliações excessivamente teóricas, desconectadas das realidades operacionais. Por outro lado, um diagnóstico baseado exclusivamente no conhecimento de campo frequentemente subestima as evoluções futuras.
O desenvolvimento colaborativo com equipes operacionais e ambientais dos aeroportos permite integrar realidades técnicas, usos cotidianos e restrições específicas de cada instalação. Para ampliar a visão sobre os desafios territoriais para além das atividades aeronáuticas, operadores vizinhos (de redes ferroviárias e rodoviárias) também devem ser envolvidos, assim como autoridades públicas, especialmente ao tratar riscos como incêndios florestais ou eventos hidrológicos, que muitas vezes são externos à própria infraestrutura. Ao promover uma dinâmica coletiva com atores institucionais e privados, a abordagem fortalece a resiliência territorial na antecipação e gestão de eventos climáticos extremos, ao mesmo tempo em que compartilha responsabilidades.
O trabalho colaborativo com operadores aporta conhecimento detalhado do local, incluindo incidência de eventos passados, pontos críticos recorrentes, áreas sensíveis e restrições operacionais. São as próprias equipes que conhecem quais terminais são mais expostos durante ondas de calor, onde a água se acumula nas pistas durante tempestades extremas, ou quanto tempo leva para restabelecer condições operacionais normais após episódios de neve. Esse retorno transforma uma análise macroclimática em um diagnóstico preciso, acionável e priorizado.
Uma vez consolidadas essas observações, a expertise técnica aprimora o diagnóstico ao considerar:
- fatores potenciais de agravamento, como envelhecimento da infraestrutura, degradações existentes ou materiais utilizados
- exposição específica aos perigos climáticos
- impactos funcionais, como interrupções de serviço, atrasos ou cancelamentos de voos.
As soluções de adaptação resultantes desse processo de inteligência coletiva são mais pertinentes, pois se baseiam em um diagnóstico compartilhado e em uma compreensão comum das prioridades. O exemplo do Aeroporto Lyon–Saint-Exupéry, operado pela VINCI Airports, ilustra essa abordagem.