Todas as manhãs, bem cedo, em pontos de ônibus e estações de metrô ao redor do mundo, encontram-se as pessoas que fazem as cidades funcionarem.
Algumas horas antes de trabalhadores de escritório seguirem para os distritos financeiros ou turistas saírem para conhecer os pontos turísticos, estão lá enfermeiros e profissionais da limpeza, bartenders de casas noturnas e trabalhadores de feiras, até mesmo algum jornalista no turno da madrugada — todos voltando para casa ou indo para o próximo trabalho.
Melhorar as opções de transporte pode facilitar a vida desses moradores e trabalhadores.
MM: Isso tira as pessoas dos carros, dá mais opções de deslocamento. Em alguns casos, como em Toronto, onde há muito congestionamento, isso devolve tempo ao dia das pessoas. Há impactos positivos na redução de gases de efeito estufa e por aí vai.
Mas, ao mesmo tempo, melhores conexões podem elevar os aluguéis, empurrando trabalhadores com menor renda ainda mais para longe, desestruturando as comunidades onde vivem e alterando seu caráter histórico.
Bem-vindo ao Engineering Matters. Eu sou Rhian Owen, e eu sou Alex Conacher. Neste episódio, parte de uma minissérie produzida em parceria com a Egis, vamos entender como comunidades orientadas ao transporte coletivo podem ser desenvolvidas para garantir acesso às cidades, a moradias e serviços locais, sem sobrecarregar ainda mais o orçamento público.
MM: Quando pensamos em viabilidade comercial, há um investimento público significativo cobrindo custos enormes. Mas o projeto ainda precisa se encaixar nas prioridades e no orçamento do governo.
MM: Também entram na conta as oportunidades de retorno, como a valorização da região e o aumento de arrecadação com novos negócios e empreendimentos gerados a partir disso.
Michael Matthys é urbanista na SvN, parte do coletivo 10N da Egis. Ao redor do mundo, profissionais como ele buscam desenvolver áreas que combinem novas conexões de transporte com moradias, escritórios e espaços comerciais.
MM: Ao desenvolver uma comunidade orientada ao transporte coletivo ao redor dessas infraestruturas e estações, você consegue esticar melhor esses investimentos.
MM: E ainda há efeitos indiretos: aumento da base de usuários do transporte na estação, além de mais moradia, empregos e serviços comunitários.
Uma comunidade orientada ao transporte coletivo pode ter moradias e escritórios construídos ao redor de uma estação — ou até sobre ela.
MM: Pensando em construtibilidade, há duas abordagens principais: integração horizontal, estação ao lado do empreendimento, com fundações independentes, ou integração vertical, em que estrutura e fundação precisam ser resolvidas de forma conjunta. Isso traz uma série de desafios do ponto de vista construtivo.
A SvN trabalha em projetos no centro de Toronto, uma área vibrante e histórica que atrai urbanistas como Michael.
MM: Como urbanista, eu adoro centros urbanos, porque eles têm muita “textura”.
MM: Você pode parar em uma esquina, olhar ao redor e absorver tudo… edifícios de diferentes épocas que refletem a história da cidade. E isso também gera uma série de desafios construtivos.
O centro de Toronto está sobre o antigo leito do Lago Ontário, um terreno nada simples para construir.
MM: Como planejador, aconselho meus clientes sobre o que é um bom planejamento, a qualidade da comunidade que estamos criando, se aquele é o lugar certo para o desenvolvimento. Mas também preciso trabalhar com engenheiros estruturais e arquitetos para entender se aquilo pode realmente ser construído.
Uma solução é aproveitar estruturas existentes. A estrutura de um edifício histórico pode ser transformada em estação, reduzindo a pressão sobre o solo.
Isso exige um sequenciamento cuidadoso entre a obra pública de transporte e o desenvolvimento da comunidade ao redor.
MM: Há um momento em que esses edifícios passam de seu volume histórico para uma configuração reduzida, com uma estação dentro, até serem novamente preenchidos com uma comunidade construída acima.
MM: Seria muito mais simples demolir tudo, mas perderíamos a riqueza e a identidade das cidades, o que seria uma grande perda.
Mais afastados do centro estão os subúrbios ligados por antigas linhas de bonde ou outros modais, muitas vezes habitados por aqueles trabalhadores que citamos no início do episódio.
MM: A preocupação é que novos investimentos e comunidades orientadas ao transporte coletivo acabem expulsando essas pessoas.
A província de Ontário e a cidade de Toronto criaram políticas para evitar isso.
MM: Ontário criou um modelo chamado zoneamento inclusivo…
MM: …que exige que empreendedores reservem uma porcentagem da área ou das unidades como habitação acessível, dentro de um perímetro ao redor das estações.
MM: A cidade também definiu áreas prioritárias ao redor de estações de transporte, onde esse tipo de política é obrigatório.
Mas não se trata apenas de transporte e moradia acessível, é preciso garantir benefícios mais amplos para a comunidade.
MM: Há uma responsabilidade, tanto minha quanto da equipe e do governo, de pensar cuidadosamente como usar os recursos, incluindo a parcela destinada a benefícios comunitários, para melhorar a equidade ao longo da linha de transporte.
MM: Nem todas as comunidades impactadas são iguais. Algumas têm mais recursos, outras menos. E a distribuição desses benefícios é fundamental.
Garantir esses benefícios exige diálogo com a população local. Em muitos desses bairros, há demandas não atendidas, mas também muito orgulho da comunidade.
MM: O que mais ressoa com as pessoas é quando você realmente escuta suas preocupações e as incorpora ao projeto.
MM: Em Thorncliffe Park, por exemplo, ficou claro o quanto a comunidade é engajada e orgulhosa do lugar onde vive.
Nem todos enxergam a comunidade da mesma forma. Um antigo prédio industrial pode representar orgulho para uns e algo negativo para outros.
MM: Havia uma proposta de preservar elementos de uma antiga fábrica, como uma chaminé histórica. E alguém questionou: “por que manter isso?”
MM: Essa diversidade de percepções é justamente o que dá riqueza às comunidades. Quando conseguimos entender essas experiências, elas podem influenciar o projeto de forma significativa.
Para urbanistas como Michael, equilibrar novas conexões, restrições orçamentárias e desafios construtivos é essencial.
Mas são os pequenos detalhes que ajudam a preservar o senso de comunidade e história em meio a mudanças rápidas.
MM: Em projetos de patrimônio, por exemplo, usamos planos de interpretação.
MM: Às vezes são placas, mas também pode ser o próprio desenho da paisagem. São soluções sutis, talvez até passem despercebidas, mas que agregam muito valor e significado ao projeto.