Você sabe que a bola entrou no fundo da rede.
Mas será que conseguiu acompanhar cada momento da jogada que levou até lá?
Essa é a experiência que Mark Fenwick quer proporcionar a cada torcedor — em alguns dos maiores estádios do mundo.
MF: O grande ponto no design de estádios é que, obviamente, o campo é a parte mais importante do jogo, porque é onde ele acontece. E a arquibancada é a área onde as pessoas se sentam ao redor do campo. Elas olham para baixo, para o gramado, e participam do jogo à sua maneira. Existe uma interação entre a arquibancada e o campo que é fundamental.
Bem-vindos ao Engineering Matters. Eu sou Tim Sheahan, e eu sou Alex Conacher. Neste episódio, parte de uma minissérie produzida em parceria com a Egis Group, vamos nos aproximar da ação por trás do design de estádios e entender como um algoritmo único está ajudando a garantir que cada torcedor tenha a melhor visão possível.
A ciência por trás de garantir uma boa experiência visual remonta a John Russell, um designer de teatros da era vitoriana. Russell desenvolveu o C-value, que mede a capacidade de cada espectador de enxergar o palco.
MF: O design de teatros era muito focado em uma única direção: o palco.
MF: No design de estádios, estamos olhando para 360 graus ao redor do campo.
MF: Queríamos avaliar como isso poderia ser traduzido em um valor numérico.
Mark e seus colegas desenvolveram então o FI-Factor para estabelecer esse valor numérico, enquanto competiam com outros arquitetos para projetar um novo estádio da Copa do Mundo na Education City, no Qatar.
FI é um trocadilho com o escritório de Fenwick (Fenwick Iribarren Architects) e uma referência à letra grega phi, a quinta do alfabeto, remetendo aos fatores considerados.
MF: Decidimos considerar cinco parâmetros diferentes de qualidade da arquibancada.
MF: O primeiro é, obviamente, o C-value, a qualidade da visão por cima da cabeça da pessoa sentada à frente.
MF: O segundo é a distância do seu assento até o canto oposto do campo.
MF: O terceiro é o ângulo de visão do campo — o ângulo a partir do qual você observa o gramado.
MF: Não é a mesma coisa estar bem próximo ao nível do campo ou mais acima, onde se tem uma visão diferente do jogo.
MF: Também consideramos onde o assento está localizado no estádio — nos cantos ou no centro — e como ele está orientado em relação ao campo.
O FI-Factor pode ser representado por um número de até 500, calculado a partir de valores ponderados desses cinco subfatores. Ele também pode ser representado graficamente, com cada assento colorido em um gradiente que vai do verde, passando pelo azul, até o vermelho.
MF: Conseguimos mostrar ao cliente como era a arquibancada que havíamos projetado. Era possível ver onde estavam os pontos vermelhos, as áreas azuis e assim por diante. Depois voltamos a eles e dissemos: podemos ajustar um pouco aqui e ali. No final, chegamos a uma arquibancada com valor 473, o que é extremamente bom.
Eles não apenas alcançaram seu objetivo com o cliente, como também ajudaram na decisão sobre o uso do estádio.
MF: É bem conhecido que atletismo não funciona bem em um estádio de futebol. A pista de atletismo afasta as pessoas do campo. Quando apresentamos o projeto de Education City, calculamos também o FI-Factor para atletismo e ele ficou em 295.
MF: O cliente estava considerando combinar atletismo e futebol, e isso os convenceu de que não era uma boa ideia.
Empolgada com o sucesso na Copa do Mundo, a equipe decidiu aplicar a mesma lógica em Valencia, onde já trabalhava em um novo estádio.
MF: A arquibancada já estava construída — todo o concreto — quando os projetos no Catar começaram em 2009. Ou seja, o estádio de Valência foi projetado antes de termos o FI-Factor. Quando aplicamos o cálculo depois, ele atingiu 440.
O valor mais baixo não se deve apenas ao fato de o FI-Factor não ter sido usado no projeto inicial. O estádio também é maior, com mais de 70 mil lugares, enquanto o de Education City tem cerca de 44 mil.
MF: Quanto maior o estádio, mais ele é penalizado no FI-Factor, porque muitas pessoas ficam mais distantes do campo.
Para entender melhor como o índice se comparava com outros projetos, o escritório analisou alguns estádios famosos — incluindo um dos mais antigos do mundo.
MF: Analisamos o Colosseum, em Rome. Achamos interessante ver como, há dois mil anos, os projetistas enfrentaram o desafio de criar uma boa arquibancada. O Coliseu marcou 371, o que não é nada mal para um projeto de dois mil anos.
MF: Também comparamos com o estádio do Real Madrid, que ficou em 355, e com o do FC Barcelona, que ficou em 385. Ou seja, o Coliseu é ligeiramente melhor que o estádio do Real Madrid e um pouco pior que o do Barcelona.
O escritório Fenwick Iribarren passou a integrar o Egis Group neste verão, juntando-se à 10N Network, rede internacional de escritórios do grupo.
MF: Estamos trabalhando com os engenheiros da Egis e com o departamento de esportes da empresa em vários projetos. Não apenas estádios — como a Egis também esteve envolvida nos Jogos Olímpicos de Paris 2024 — agora estamos analisando novos projetos em que o FI-Factor será incluído nas avaliações.
MF: Esperamos levar isso para mercados muito mais amplos. Com a Egis, estamos olhando para os Estados Unidos, China e o compartilhamento de conhecimento entre nós está funcionando muito bem.
A equipe também estuda como aplicar o FI-Factor a outros tipos de eventos.
MF: Estamos aplicando ao rugby e também podemos aplicar a shows.
MF: Mas shows são um pouco diferentes, porque se parecem mais com teatro. No futebol, a experiência acontece no centro do campo. Já nos shows, o palco costuma ficar em uma das extremidades do estádio, o que cria uma configuração mais próxima de um teatro.
Além disso, o FI-Factor pode ajudar a melhorar estádios já existentes.
MF: Estamos analisando alguns estádios onde podemos fazer pequenas melhorias em áreas específicas. Em vez de reconstruir tudo, podemos construir sobre a estrutura existente da arquibancada e modificar levemente o formato.
MF: É quase como fazer uma “microcirurgia” em estádios existentes — reformando-os para oferecer uma experiência muito melhor para o público.