LG: Todos nós sabemos por que devemos considerar a sustentabilidade.
LG: O que pode ser um pouco complicado é entender exatamente no que focar quando falamos de sustentabilidade na construção.
Lucas Grisoni é diretor de engenharia estrutural na Elioth, by Egis, uma consultoria de engenharia focada em sustentabilidade, com sede em Paris.
Quando chega a hora de pensar nos materiais, Lucas prefere um bisturi a uma serra.
LG: Trata-se das escolhas que você faz em um projeto, tentar fazer o mínimo possível, evitar demolir um edifício inteiro para construir um novo quando já existe algo perfeitamente adequado.
LG: Você pode se esforçar o quanto quiser ao trabalhar e projetar algo novo: do ponto de vista da sustentabilidade, nunca será tão eficiente quanto simplesmente evitar fazer e reduzir intervenções desnecessárias.
Bem-vindo ao Engineering Matters. Eu sou Rhian Owen, e eu sou Alex Conacher. Neste episódio, parte de uma minissérie produzida em parceria com a Egis, vamos analisar três projetos em Paris que exemplificam uma abordagem mínima e sustentável na construção.
Especialistas em sustentabilidade frequentemente utilizam uma hierarquia para orientar suas decisões sobre intervenções. A melhor forma de limitar o impacto é não fazer nada.
Se isso não for possível, use o mínimo de materiais possível.
E, por fim, se um trabalho mais extenso for necessário, substitua materiais com maior intensidade de carbono por alternativas de menor impacto.
Essa hierarquia é uma regra prática útil para qualquer projeto. Mas engenheiros estruturais em Paris — e ao redor do mundo — também precisam considerar mudanças nas regulamentações.
LG: Atualmente, na França, há uma nova regulamentação, a Energy Regulation 2020, que estabelece metas obrigatórias para o carbono incorporado em novos edifícios. E esse projeto já era um pouco visionário, porque tinha metas muito ambiciosas para o carbono incorporado.
LG: Agora, com a introdução desse parâmetro, estamos vendo surgir uma linguagem completamente nova na arquitetura — e acredito que o projeto da Universidade de Chicago seja um excelente exemplo disso.
No novo edifício da Universidade de Chicago em Paris, Lucas e sua equipe buscam tanto reduzir o uso total de materiais quanto escolher o material certo para cada parte do projeto.
LG: É uma combinação de materiais escolhidos com precisão para reduzir a pegada de carbono. Mas esse não é o único fator: o edifício está localizado sobre uma ferrovia, e a forma como distribuímos os materiais na estrutura é diretamente influenciada por isso.
LG: No nível da ferrovia, há uma estrutura existente de concreto, durável e robusta. Isso significa que você tem posições de apoio e capacidades já definidas. Então, é preciso minimizar o peso do edifício, mas também alcançar esses apoios e transferir as cargas da superestrutura — com sua própria malha estrutural — para os suportes existentes abaixo.
Para essas transferências, o aço — resistente e leve — foi a escolha ideal. A madeira foi utilizada sempre que possível, para reduzir os impactos de carbono. Outras escolhas de materiais também refletiram o caráter de Paris, sem deixar de lado a sustentabilidade.
LG: Jeanne Gang, a arquiteta, teve a ideia muito interessante de usar brises externos feitos de pedra natural. E, para quem cresceu em Paris, existe uma conexão muito forte entre esse material e a história da construção na cidade. Mas aqui precisávamos torná-los leves, então combinamos com um material compósito para reduzir o peso.
Em outra nova estrutura, uma torre residencial, os benefícios da substituição de materiais são levados a um novo patamar.
LG: O WoodUp é uma demonstração clara do que é possível alcançar com a madeira e de como ela pode ser incorporada estruturalmente em edifícios altos.
Com 50 metros de altura, é um dos edifícios de madeira mais altos da Europa. A escolha do tipo de madeira foi essencial.
LG: Quando falamos de madeira em edifícios de média e grande altura hoje, geralmente estamos falando de abeto laminado colado.
LG: Mas, neste caso, houve a intenção de escolher o tipo certo de madeira para cada elemento estrutural, de acordo com sua função no comportamento global da estrutura.
LG: Aqui, optamos pela madeira de faia, que é mais rígida e resistente, mas a utilizamos apenas nas colunas verticais, que são os elementos de suporte de carga.
Em outras partes, foram utilizadas vigas de madeira mais convencionais, junto com uma pequena quantidade de concreto em partes do núcleo e das fundações.
LG: Quando a Elioth by Egis foi selecionada para fornecer os serviços de engenharia estrutural para o restaurante reformulado na Torre Eiffel, a equipe adotou a abordagem máxima da sustentabilidade: fazer o mínimo possível. Nesse caso, compreender profundamente a estrutura histórica foi essencial.
LG: Toda a estrutura da Torre Eiffel é feita de ferro pudlado (fer-puddlé, em francês), um material que praticamente não é mais utilizado hoje. Sua particularidade está no processo de refino do ferro, que busca torná-lo relativamente homogêneo. Há uma etapa em que o operário utiliza uma espécie de gancho longo para estimular a reação química durante o refino.
Essa mistura manual torna o material bastante variável.
LG: É necessário investigar o material e dialogar intensamente com os engenheiros responsáveis pela integridade estrutural da torre para obter o máximo de informações possível.
E essa abordagem mínima exige ainda mais investigação, para identificar apenas as mudanças necessárias para adequar o restaurante às normas atuais de segurança.
LG: As fachadas laterais, em teoria, precisariam ser completamente removidas e substituídas por conta das novas exigências de segurança contra incêndio. Além disso, toda a organização do espaço estava mudando. Precisávamos criar pisos em algumas áreas e abrir vãos para uma nova escada em outras.
LG: A solução mais fácil seria manter apenas o mínimo da estrutura existente e construir tudo de novo para o restante. Mas buscamos compreender com precisão o papel de cada elemento estrutural do restaurante existente para realizar uma intervenção mínima.
A equipe trabalhou com restrições rigorosas de peso. Isso garante a integridade da estrutura e, ao mesmo tempo, reduz impactos de carbono e o uso de materiais.
Um projeto como esse ilustra o novo desafio enfrentado por engenheiros estruturais.
Não se trata mais de convencer o cliente a aceitar mais trabalho.
Trata-se de defender a realização de menos trabalho.
LG: Nem sempre é fácil chegar ao cliente e explicar que ele deveria, na verdade, fazer menos do que havia imaginado para o projeto. E, para convencê-lo de que esse é o melhor caminho, é preciso demonstrar que ainda assim será possível alcançar um resultado de altíssima qualidade.